Caminhadas em África

Estou de volta a esta terra e parece que nunca daqui saí. Talvez por não ter passado assim tanto tempo ou talvez por ela nunca me ter deixado.
Há lugares que nos marcam, que nos ficam cravados pelas mais diversas razões. Nem precisam ser grandiosos. Basta termos tido a sorte ou a audacidade de estar no lugar certo à hora certa. Assim é o Botswana, sempre pronto a surpreender. Esta terra, selvagem como nenhuma outra, faz questão de recordar a qualquer momento porque lhe chamam “The Wild Botswana”…
O voo de Maun até ao lodge, localizado numa das ilhas do Delta do Okavango, é breve mas o piloto atendeu ao meu pedido e voou o mais devagar que o Cessna lhe permitia para desfrutar de uma das mais impressionantes paisagens de África.
Este ano, as chuvas que deviam ter caído nas montanhas no sul de Angola, nunca chegaram a acontecer. As águas que deviam ter corrido no Cubango não chegaram a aparecer. As planícies que deviam ter inundado no Okavango continuam por encher.
O que devia ser uma imensa encruzilhada de rios e canais em tons de azul e verde, é um mar dourado de erva seca, onde palmeiras solitárias se erguem que nem totens inquebráveis a fazer questão de lembrar que aquelas terras pertencem a águas distantes e teimosas.
Os animais esses deambulam confusos à espera de água que este ano nunca virá. Concentram-se em charcos, subjugados à tolerância dos impertinentes hipopótamos. Um desses charcos mesmo em frente ao lodge oferece um espectáculo em jeito de documentário galardoado de vida selvagem que se desenrola continuamente à nossa frente. Animais e pássaros incautos de todo o tipo tentam ganhar o seu lugar para beber a unica água lamacenta que encontram, ignorando os crocodilos que apenas descansam ao seu lado por estarem de barriga cheia, os búfalos que competem com os hipopótamos no jogo da impaciência, a águia pesqueira que nem precisa de fazer pontaria, a leoa que desfila com as suas duas crias sob o olhar atento de toda a multidão e, alheios a todo este corropio, os elefantes que inteligentemente decidem não brincar ou banharem-se na pouca água que lhes resta. Tudo isto sob um horizonte de mil cores pinceladas por um sol africano, prestes a desaparecer como que cansado depois de ter passado um dia cansativo a cozer esta terra.
A proximidade do lodge à água, atrai todo o tipo de animais que aqui encontram uma iguaria rara por estas paragens – alguma erva verde. Os mais destemidos, invariavelmente os elefantes, entram pelo lodge adentro e tudo lhes serve de repasto. Tudo à volta, na verdade, parece um cenário de guerra destruído pela voracidade destes gigantes. Apenas restam as árvores que não conseguem derrubar ou que não lhes agrada ao palato. Curiosamente, eles parecem perceber que tudo o que os homens ali colocaram, aos homens pertence. E sabem-no bastante bem. Tudo o resto é por eles reivindicado como que senhores feudais desta terra.
A expressão “que nem elefante numa loja de porcelana” não faz aqui sentido, pois movimentam se por entre as tendas e bungalows que nem gatos por entre bibelôs, com uma destreza e agilidade acrobática.

Tivemos uma manhã super emocionante. Na mesma caminhada pelo mato, vimos um leopardo e um grupo de leões.
O leopardo assim que percebeu que tinha sido avistado e que mudámos a nossa direção para nos aproximarmos, desceu da árvore e embrenhou-se pelo mato. Fez simplesmente o que os leopardos fazem de melhor: desaparecer. Nem mesmo com os guias pisteiros locais bastante experientes lhe foi possível apanhar o rasto. Procurar um leopardo a pé no mato é das experiências mais emocionantes que se pode ter. Não há descarga de adrenalina que se lhe compare, na certeza de que estamos a ser observados e todos os nossos sentidos se despertam como nunca antes. Mas uma vez perdido o rasto de um leopardo, é difícil, senão impossível de voltar a encontrá-lo.
Mudámos a nossa rota e continuámos a nossa caminhada em busca de outros animais. Lidero um grupo de 6 canadianos, 3 casais todos nos seus 60 anos de idade com um espírito jovial invejável que resolveram fazer o seu safari a África que vinham adiando há alguns anos. Passamos por zebras, girafas, kudus, impalas, facocheiros e todo o tipo de animais que posam para nós vaidosamente como que sabendo que apenas disparamos fotografias. Mas não nos deixam aproximar. Cada animal tem a sua distância de segurança e que se vai aprendendo apenas com experiência de muitas caminhadas no mato.
De volta para o lodge, o guia pisteiro vê o que mais ninguém consegue decifrar na erva alta a uns 50 metros de nós: leões. Tentamos aproximar mais um pouco mas em vão. Tal como o leopardo, ensinados na mesma escola da selva, desaparecem. Mas desta vez não os tentamos seguir. É um grupo de cerca de 15 que os guias conhecem bem. Este lugar é aliás conhecido pela grande população de leões e não seria prudente fazê-lo nas condições em que estávamos. Voltamos para o lodge onde nos serviram um almoço de fazer inveja a qualquer restaurante sofisticado de cidade e logo após cada um escolhe o seu sítio predileto para uma sesta. Eu escolhi a cama de rede no deck sobre a água.
Já de volta ao “lobby” do lodge, um alpendre com vista para o delta, um dos guias pisteiros vem ter comigo e pergunta se queremos antecipar a caminhada da tarde… Pergunto: “Porquê? Está bastante calor e o grupo não é propriamente jovem!” Responde: “Uma leoa com 2 crias acabou de atravessar a pista de aterragem, mesmo aqui em frente ao lodge. Se sairmos agora, tavez a consigamos ver.” Peço-lhe um minuto para reunir o grupo e perguntar se estão confortáveis com a decisão de tentar avistar a leoa. A resposta foi mais que previsível: “Awesome! Let’s go!”
Não fomos os únicos. Quase todos os hóspedes do lodge, cerca de 20 pessoas, saem a pé em grupos de 2 a 6 pessoas, liderados cada qual por um guia pisteiro (batedor) em direção ao lugar onde se tinha avistado a leoa. Cada grupo toma um percurso diferente. Nem demorou 5 minutos de caminhada para vermos a forma inconfundível de uma leoa a caminhar calmamente entre a vegetação, a uns 100 metros de nós. Os guias comunicaram entre eles através dos walkie-talkies e de imediato todos os grupos confluem para esse mesmo sítio.
À medida que nos aproximávamos perdemos a leoa de vista. À vista, agora, estavam apenas os grupos todos à distância de 50 a 100 metros entre si, a olhar uns para os outros intrigados sobre onde se meteu a leoa ou quem não a viu passar… mas novamente num ápice volta a revelar-se mas desta vez em passo acelerado claramente a tentar evitar as pessoas que vindas de vários lados se tentavam aproximar para tentar a derradeira foto. Perdemo-la de vista novamente por entre a erva alta desta vez a menos de 50 metros, quando se dirigia para uma linha de árvores. Seguimos nessa direção, em fila indiana como mandam as regras de caminhada no mato, com todos os sentido em alerta, fitando a linha de árvores, onde supostamente a leoa se teria escondido. Pé ante pé por erva densa que nos chegava pelo peito e que pouco ou nada descortinava o caminho que trilhávamos, olhando fixamente para a linha de árvores que se estendia à nossa frente, subitamente num ruído estrondoso, salta a leoa aos nossos pés!
Literalmente aos nossos pés, à distância de um passo! Inacreditável como nos deixou aproximar assim tanto e inacreditável como tão bem camuflada na erva alta ninguém a conseguiu ver. O som do rugido é difícil de descrever… estremece-nos o corpo de tão alto e tão próximo. Num rugido se levantou e noutro se sumiu, deixando apenas um grupo petrificado sem fotos para mostrar mas com uma bela história para contar.
Mais emocionante que isto só mesmo a do leopardo no camp de Savuti. Mas essa história guardo para vos contar quando aí chegar.
… e assim se passam os dias no Botswana.

Dia de Pesca

Perdi os chinelos. Mas isso não me impediu de caminhar descalço pela estrada barrenta até um lugar que, olhando ao Google Maps, me parecia bastante promissor num pequeno promontório numa das margens do Nilo. Na verdade, até ando melhor sem eles mas não creio ser também essa a mesma razão pela qual metade das pessoas aqui andarem descalças… É tão comum que até lhe deram um verbo!
“Why are you footing?” pergunta um deles intrigado pois na lógica deles, um “Mzungo” descalço, simplesmente não faz sentido. Presumo que todos tenham umas sandálias ou um par de botas domingueiras para levar à missa ou a casa dos sogros mas apenas e só para isso, ocasiões especiais. Tudo o resto, por aqui e por ali, se faz descalço.

Quase a chegar ao destino da minha caminhada, deparo-me com um portão no meio da estrada sem nada a ladeá-lo, muro, cerca, nada! Apenas um portão no meio do nada!
No lado de “dentro” um homem sentado dá-se ao trabalho de, muito diligentemente, mo abrir para mim num gesto de grande profissionalismo na sua condição de porteiro qualificado. Com um sorriso tímido sussurra um “welcome”, só perceptível por ser previsível. Usa um crachá com letras gastas ao peito que lhe deve atestar o seu Doutoramento em abrir portas. Novamente num sussurro, como aliás é bastante comum por aqui em sinal de respeito, diz-me “it’s ten dollars for entrance, please”. Este era sem dúvida um homem esperto e empreendedor que montou um portão para testar a sua sorte com os poucos turistas que por ali passam. Quase tão esperto como a senhora que ontem ao fim do dia montou a sua pequena banca no meio da rua e apenas com um corta-unhas começou a cortar unhas a freguês após freguês e para meu espanto, passados 5 minutos já formavam fila. É surreal as originalidades de negócios que aqui se criam e que só aqui neste lugar do mundo fazem sentido!
Voltando ao nosso porteiro… Tudo aqui é negociável e nunca lhe iria pagar os 10 dólares mas para infortúnio dele não tinha trazido a carteira comigo.
Digo-lhe “Sebbu, I don’t have my wallet with me.” Faz-me o olhar e o som de como quem diz “malandro, tu sabes…” Senta-se na cadeira azul de plástico da Pepsi e diz “OK”. Curioso como todos os povos têm gestos, sons, olhares que comunicam algumas coisas de uma forma tão mais expressiva.

Alguns metros mais à frente chego a um sítio verdadeiramente impressionante onde o Nilo se abre e corre apressadamente entre ilhas e ilhotas formando rápidos e cascatas em toda a minha volta. Deslumbrado, volto a sentir-me qual Livingstone e sento-me no cimo de uma rocha para contemplar este cenário onde alguns pescadores apenas munidos de remos lutam contra as correntes dum rio furioso por rotas estratégicas e mais que percorridas e ensinadas pelos seus antepassados para chegar a outras ilhas ou margem oposta. Notoriamente não é fácil. Alguns não conseguem à primeira e voltam a tentar as vezes que forem preciso para lá chegar. Mesmo quando o destino é a jusante, a rota não é a direito e muito menos entregarem-se à deriva é uma opção sensata. As águas turbulentas têm segredos que apenas estes homens lhe conhecem e todos devem ter histórias de barcos virados para contar.

Desço de pedra em pedra até à água para lavar os pés. Mesmo ali ao lado, 3 rapazes preparam os apetrechos dentro do barco para se fazerem ao rio. Atento em tudo aquilo que fazem e é com igual curiosidade que me observam interessado nos seus afazeres. Experimento conversa com perguntas triviais como os peixes que apanham ou os anos que levam de faina ao que respondem orgulhosamente. O mais velho chama-se Tony, os outros têm nomes locais que não consegui memorizar. Quando dou por mim estou dentro do barco pronto a zarpar!

Dizem-me que primeiro têm de ir a uma ilha apanhar isco e lá vamos. Começam por remar contra-corrente apontando a um dos rápidos. Assim que entramos em águas agitadas, sinto o barco a girar em sentido contrário e a entregar-se completamente à força da corrente ao mesmo tempo que ganha espantosa velocidade aos saltos de vaga em vaga. Apreensivo, olho para Tony que parece ter tudo sob controlo e fazendo tudo aquilo parecer premeditado. Uns breves segundos, outros tantos salpicos depois e voltamos a águas tranquilas uns 300 metros mais abaixo e já do outro lado do rio. Encostamos na margem de uma das ilhas e com as tarefas bem ensaiadas de quem faz o quê, atracam o barco e entram pela vegetação densa da ilha. Esforço-me para tentar segui-los mas é impossível. Conhecem cada pedra, cada tronco como se toda a vida tivessem feito aquilo e certamente seria esse o caso. Chegamos ao outro lado da ilha e um deles, o irmão do meio o mais atlético, já de cuecas mergulha e começa a nadar num estilo muito estranho mas eficiente pelas ondas e entre pedras até chegar a uma rocha no meio do rio para colher uma alga que serve de isco. Regressa 15 minutos depois com as cuecas cheias de isco (hilariante mas decidi não tirar foto) e seguimos para o pesqueiro.

Ensinam-me a iscar e estou pronto! Cada um em cima de sua pedra aguarda a sua sorte.
Num instante de racionalidade ocorreu-me algo e pergunto:
“Sebbu, are there crocodiles here?” Ele esboça um sorriso de Mona Lisa que não consegui desvendar e deixa-me sem resposta. Lembrei-me da máxima que já usei várias vezes com outros mas nunca comigo mesmo: “Não faças perguntas para as quais não sabes lidar com a resposta.” E continuamos a pescar em cima do calhau…

Casamento

Tal como nos aconselharam, chegámos mais cedo para garantir lugar. Meia hora não fora suficiente pois a igreja ja estava cheia e suspeito que desde o primeiro raiar de sol… O caso não era para menos: celebrava-se o casamento do ano!

Enquanto esperamos, o coro ensaia, os acólitos fazem-se ocupados numa azáfama de inúteis ajustes, o padre distribui benções, as crianças ocupam todos os pequenos espaços onde os adultos não conseguem caber. A pequena igreja transforma-se num colorido Tetris humano. Não cabiam mais corpos naquele espaço. Duas crianças respiravam no meu pescoço. Era o único espaço que lhes era permitido ocupar.

A sala começou a aquecer. Bastante. Prevendo essa situação, sentei me junto a uma porta lateral aberta para a rua para apanhar a pequena brisa que soprava como que encomendada.

Sabia que a cerimónia ia ser longa. Assim foi… duplamente longa por ser celebrada em Inglês e Ruchiga, numa espécie de desgarrada africana mixada com transe episcopal.

Entre vários sermões, canções e exaltações, aos quais não prestei atenção por estar a observar todas as pequenas curiosidades que se passavam à minha volta, sintonizei na pregação sobre as três coisas q a mulher não deve fazer ao Homem depois de casar:

1- “Não deve envenenar o homem”, vá-se la perceber porquê!

2- “Não deve bater na cabeça do homem com um pau”. Não foi explícito se são permitidos outros artefactos…

3- “Não deve atropelar o homem com o carro, se tiver um”. Acho q foi um comentário de mau gosto pois ninguém na aldeia tem carro.

Três horas e meia depois, parece que finalmente está o casamento celebrado. Seguimos para o copo d’água. Toda a aldeia foi convidada! Os mzungus amigos dos noivos têm direito a um lugar e refeição especial. À restante multidão, é oferecida uma senha de almoço a cada um para não haver trafulha… muito embora o banquete estivesse a ser guardado por vários militares do exército de AK-47. (Apenas para tranquilizar o meu pai que irá também ler este texto, isto por aqui é super pacífico e tranquilo. Simplesmente a metralhadora AK-47 é uma coisa corriqueira, qualquer guarda de supermercado tem uma. Encontram-se vulgarmente por todo o lado e no outro dia até estavam umas crianças a brincar com uma que alguém se deve ter esquecido na paragem do autocarro. Portanto, no worries 😉

Após almoço chega a hora do cortejo das ofertas aos noivos. Entre torradeiras e terrenos agrícolas, os noivos são contemplados com uma parafernália de oferendas, acompanhadas por um relato ao género de Fernando Mendes na montra do Preço Certo. Ainda a saca dos presentes ia a meio quando decido que é hora de deixar a festa, que continuará por mais 2 dias.

Saturday

Entra na sala de ar triunfante e com um sorriso incessante vai falando aos seus amigos que lhe retribuem abraços, palmadas gentis e outras saudações. Caminha na minha direção para satisfação da minha curiosidade e diz:
-“have baby last night!” e lança os braços ao ar vitoriosamente.
-“Congratulations! Well done!”, respondo eu e pergunto “Boy or girl?”
-“Girl!”, responde ele com um aceno impetuoso da cabeça para a frente como se me estivesse a atirar a palavra para ter ainda mais impacto. Sorrio e dou-lhe duas palmadas amigáveis no ombro. Segue feliz para colher as congratulações do amigo que se segue. Irá celebrar noite dentro.
Na manhã seguinte após o pequeno almoço, sento-me ao computador numa das mesas recatadas do canto do lounge e começo a trabalhar. Pouco depois, uma mão pousa-me no braço e diz: “Come see my baby!”. Explico-lhe a urgência daquilo que tenho para fazer? Não… não iria perceber. Levanto-me e sigo-o contente pelo convite mas incomodado por não levar qualquer presente. Uma breve caminhada leva-nos a sua casa, igual às demais: feita de argila, uma porta que não tranca e duas janelas que não fecham. Contornamos a casa e abeiramo-nos no curral. Ele aponta para a cabra e diz: “Baby!”. E ali está… cambaleante entre as pernas da mãe, uma cabrita com um cordão umbilical ressequido ainda pendurado.
Sorri para mim com um sorriso mais branco que um congressista americano.
Obviamente que lhe dou os parabéns como se fosse o pai da criatura e tento inteirar-me desta realidade.
Saturday é um homem feliz. Não é caso para menos, pois acabou de duplicar o seu património. Não tem dívidas, não tem sonhos, não tem amanhãs. Saturday é um homem genuinamente feliz.
Assim se chama por ter nascido num Sábado. Mas não interessa. É irrelevante, pois aqui os verdadeiros nomes pelos quais se responde ganham-se com o tempo, consoante as virtudes ou defeitos de cada um. Os seus amigos tratam-no por Benadi, ou “o forte”.
Não sei se ficarei aqui tempo suficiente para ganhar o meu. Se tiver que ser, ao menos que seja um honrado. Por enquanto sou apenas “mzungu”.

Rubuguri

Atravessei meia África para chegar até aqui. Poderia ser o Okavango, as Cataratas Vitória ou uma qualquer das Sete Maravilhas dignas de uma odisseia mas não… o destino era mesmo esta aldeia encurralada entre os vulcões de Virunga e a Floresta Impenetrável de Bwindi. É fácil perceber aliás como esta floresta ganhou o seu nome!
Pelo caminho, trocamos de hemisfério e trocamos de roupa… os quase 3000m de altitude fazem esquecer que estou a escassos passos do Equador.
Pelo caminho, cruzamo-nos com alguns jipes brancos das UN escoltados por carros do exército. Cenário de filme. Um claro sinal que esta zona está longe de ser um local tranquilo ou um concorrido destino turístico.
Pelo caminho, à nossa passagem as pessoas pasmam, acenam, sorriem, gritam “Mzungu”, mostram tudo menos indiferença! Os carros são raros e sinto-me um ser exótico por estas partes.
Chegamos finalmente a Rubuguri… Uma terra de abundância, mas onde todos pouco têm.
Não existe uma única mercearia pois cada um tem a sua parcela de terra de onde tira o que precisa e troca ou vende o que sobeja. Tudo o resto que a terra não dá é supérfluo.
Aqui em volta, o que antes fora floresta, é agora uma colina de retalhos em tons de verde e castanho cultivados vertiginosamente desde o fundo do vale pantanoso até ao pico nublado do morro. Sem socalcos nem trilhos, trazer uma saca de batatas lá de cima, é por demais uma tarefa laboriosa apenas guiada por obstinação ou sobrevivência.
Um lugar onde metade da população tem SIDA, aqui vista tranquilamente como uma simples condição adquirida num jogo de probabilística e onde o Ébola por vezes também gosta de tentar a sua sorte.
Estranha terra esta que, por este prisma, poderia servir de ilustração a um dos Cantos do Inferno de Dantes mas na realidade é tudo menos isso: as pessoas aqui são singularmente felizes. Talvez por reduzirem absolutamente tudo a uma simplicidade desafiadora de divagações filosóficas. Até o próprio tempo tem aqui uma concepção diferente e simplista! As horas aqui começam ao nascer-do-sol, onde a noite é apenas noite e “mais logo” também é apenas isso, seja lá quando for. Invariavelmente, quando combinamos algo, perguntam: “Mzungu time or Uganda time?”  Por vezes inconsequente pois a maioria das pessoas não tem relógio e, como descobri ontem, os que têm, apenas usam por ostentação. Pontualidade é uma condição que vai perdendo importância dia após dia e, tal como tudo, assim se vai simplificando.
Que nem aldeia de Asterix, esta aldeia de irredutíveis ugandeses onde existe o ferreiro, o carpinteiro, o carregador de telemóveis, o condutor de moto-taxi, a costureira, o lenhador free-lancer, o músico… profissões muito bem definidas e sem possibilidade de concorrência, a contrastar com as 50 vendedoras de couves e batatas nos mercados de 6a feira.
Existem dois cafés na aldeia, um deles dizem-me que é “chique”. Eu não lhes vejo diferença, ambos vendem a mesma cerveja quente, ambos têm uma mesa de bilhar já sem pano, ambos vendem as mesmas alcagoitas, ambos têm exactamente as mesmas pinturas na parede… a diferença deve ser só mesmo nas casas de banho mas não me atrevo a desvendar.
A contrastar com tudo isto, as edificações de algumas das missões de voluntariado aqui presentes. De Evangelistas, Baptistas, Metodistas, Pentecostais, Católicos a Protestantes, parece que cada ramo da Igreja decidiu aqui montar a sua sucursal… o negócio da evangelização aqui vai de vento em poupa. Cada qual tem a sua igreja, escola primária, centro comunitário, terras agrícolas e residências de fazer inveja a muitos resorts… Crucifiquem-me mas diria que faz lembrar  Desmond Tutu :”When the missionaries came to Africa they had the Bible and we had the land. They said ‘Let us pray.’ We closed our eyes. When we opened them we had the Bible and they had the land.”
É domingo, o grande dia, onde cada um veste o seu único fato domingueiro para ir à missa e, sem grandes pressas, cada qual se encaminha para a sua igreja. Como que num concerto orquestrado, os cantos religiosos de cada Igreja degladiam-se pelo vale abaixo, num espectáculo memorável.
Findo as celebrações dominicais e após almoço, a população começa a juntar-se no campo da bola, aguardando o importante jogo Rubuguri Vs (esqueci-me do nome mas é uma aldeia próxima, rival importante que deve uma desforra). Footsteps patrocina a equipa local com equipamentos e uma bola que nos lembrámos de comprar ontem no supermercado a caminho. Tal como na Escola Primária, ser aquele que traz a bola dá-me índices de popularidade de fazer inveja ao Presidente Marcelo. Dou comigo rodeado de crianças que me olham estarrecidamente, ignorando o jogo que começou.
Para satisfação da curiosidade de alguns e júbilo de todos, percebem que sou Português e como tal assumem automaticamente que só posso ser um craque de futebol, da mesma linhagem que Figo ou Cristiano Ronaldo. Perguntam-me “You play? What position?” Respondo imediatamente “Seven!”. Arrependo-me logo a seguir quando percebo que mandam sair o jogador número 7 do campo. Meio contrariado, sai, tira a camisola e ma entrega. Entre uma multidão rejubilante e um coro de aplausos não tenho outro remédio senão vesti-la e entrar em campo! Num campo ervado com uma inclinação que faz a bola voltar para trás sozinha, um charco enlameado com vida própria a meio,  bosta de vaca por todo o lado, 11 Drogbas no lado adversário, penso pra mim mesmo: “se não partir um pé, já é bom…”.
Dos 22 jogadores em campo, 4 deles jogam descalços mas um deles com caneleiras e outro com uma fita na cabeça que lhe parece inspirar confiança suficiente para enfrentar pitons em riste. Reparo também que um outro tem calçados sapatos de ciclismo!! Claramente confundiu os encaixes com pitons… Tudo isto é hilariante.
Joguei cerca de 30 minutos. Escorreguei tantas vezes quantas toquei na bola. Resultado final: empatámos. Mas eu ganhei! Hoje ganhei tanto…

A Ilha do Castigo

A Ilha de Akampene é mais conhecido como Punishment Island (A Ilha do Castigo). É deserta e só com duas árvores mortas há muito tempo. Contrariamente às ilhas próximas, bastante movimentadas com aldeias palafitas, pescadores e alguns recém construídos lodges, Akampene só é visitada por pássaros que obviamente não lhe conhecem o significado…
Até meados do século passado, uma viagem à Ilha Akampene era algo que qualquer habitante local desejaria evitar.
Nesta minúscula ilha no meio do Lago Bunyonyi eram abandonadas e entregues à sua sorte as mulheres que ficassem grávidas antes do casamento.
As mulheres eram levadas em género de procissão sob um coro de insultos, que servia de advertência às restantes adolescentes, e lá deixadas sem nada, apenas para morrer, excomungadas pela família.
Mas nem sempre a história acabava da mesma maneira para as várias mulheres que lá foram abandonadas à sua sorte. Esta é uma dessas histórias:
http://www.bbc.com/news/world-africa-39576510

as pequenas saudades

Cape Town ficou para trás. Deixo a Mother City mas não me despeço ainda do Mar. Será ele aliás o meu único companheiro de viagem nos próximos 6 dias antes de voltar novamente para o mato.
Sigo Sul. Como quase sempre. Invariavelmente é esta a direção que gosto de tomar. Escolho sempre a rota mais próxima do mar para nunca o perder de vista.
O Cabo da Boa Esperança é paragem obrigatória. Um promontório imponente que rasga o mar sem medo, refúgio de Mostrengos e Adamastores. Percebe-se porquê.
A História ensinou-nos a cantar a valentia dos marinheiros portuguese mas não creio que bravura, devoção ou honra fossem os verdadeiros motivos que os trouxe aqui… Basta viajar um pouco para questionarmos a própria História… mas isso é assunto para outras insónias.
Continuo para sul, pois o Cabo da Boa Esperança ainda não é o fim do mundo! Os autocarros de turistas e as lojas de souvenires comprovam-no. É sem dúvida um lugar místico de vários nomes e apelidos ao longo da História, consoante o simbolismo que se lhe quiseram conotar, tal como outros cabos, ventos ou constelações.
Chego ao Cabo das Agulhas.
Não há mais sul! Há apenas um mar e 2 oceanos separados por uma linha imaginária. Este é talvez o maior fim do mundo dos fins de mundo. Lugar esquecido por todos. Pelos narradores que não lhe dedicam quadras. Pelos governadores que não lhe estendem estradas. Até pelo próprio sol!
Não sei porquê mas gosto destes lugares ainda não vulgarizados. São especiais e sinto-me especial com eles.
Retomo o caminho junto ao mar pela famosa Garden Route. Em muitos ou quase todos os aspectos parecida com a Costa Vicentina. Se a Arrifana tivesse pinguins, era assim…
Porém, aqui as coisas já não me parecem ao contrário mas sim em tamanho XXL.
É tudo estranhamente familiar. É uma paisagem que nos lembra aquele lugar.
É um cheiro que nos lembra aquele sabor.
É um momento que nos lembra aquele sentimento.
É um olhar que nos lembra aquela pessoa… e assim se vão matando estas pequenas saudades neste lugar que em tudo me faz lembrar o meu.

“Para a frente é que é caminho”

O vento não se rende. É o primeiro dia de Outono e parece que o “Cape Doctor” foi chamado a soprar os resquícios de Primavera para fora de Cape Town de vez. Seja como for já não tenho mais dias para subir à Table Mountain. Portanto, continuo com o plano seguindo até ao super interessante Jardim Botânico de Kirstenbosch na encosta sul e inicio a subida. Facilmente poderia ficar um dia inteiro a deambular pelo jardim mas o vento aumenta e as nuvens escurecem. Não há tempo a perder. Em género de missão, faço-me ao caminho.
Não se trata de um Kilimanjaro mas também não é propriamente um programa turístico. Tão exigente quanto cenográfico, este caminho começa ameno e complacente mas vai-se tornando frio e agreste. São mais de 10kms com elevação de 1050m onde as mãos também ajudam na subida. Começo que nem Tarzan em floresta tropical no meio de lianas e acabo no topo como William Wallace numa espécie de tundra das Highlands. Impressionante este contraste que infelizmente não me deixa ver mais além por causa do denso nevoeiro e imenso vento que às vezes me desequilibra e me leva a ajoelhar como que em sinal de reverência. Há alturas onde vejo apenas o suficiente para não sair do trilho. Sinto o sol a espreitar e olho à minha volta. Apresso-me a tirar uma foto ao Cabo da Boa Esperança, pois sei que ele não ficará ali para mim durante muito mais tempo.
Já passaram 2 horas de caminhada e ainda não me cruzei com ninguém… estarei no caminho certo? ou sou o único insensato a fazer isto com este vento?
Só ficarei a saber se continuar. “Para a frente é que é o caminho!”

The Cape

Quando estamos longe começamos a sentir falta de algumas coisas, umas mais que outras e umas a seguir às outras.
Após estes meses no bush, cheguei a Cape Town, onde a primeira coisa que fiz foi apressar-me em direção ao Mar.
Chego e observo-o como se fosse a primeira vez. Percebo uma estranha sensação de preenchimento como se reencontrasse um velho amigo longe de casa e após longa ausência, continua igual a si próprio. Aquele amigo cúmplice de brincadeiras, confissões e soluções. Ficamos ali a conversar os dois como sempre fizemos, a pôr a conversa em dia, até sermos interrompidos por um grupo de golfinhos que passa bem perto sem pressa e sem vergonha. Apercebo-me que sou o único encantado entre as várias pessoas que passeiam no calçadão e que simplesmente lhes dão a mesma atenção que às comuns gaivotas! Continuo na mesma a fitá-los até contornarem o cabo de Green Point e perdê-los de vista.
Sigo o meu caminho desta vez descalço por entre as rochas que retêm a água de outras marés e pequenas enseadas de areia. Apanho conchas, búzios, lapas… Sinto-me em casa.
Chego finalmente à zona de Waterfront, outrora o porto mais movimentado de África, hoje transformado numa frente de mar super dinâmica e sofisticada, de fazer inveja a qualquer cidade costeira europeia. A azáfama é grande com barcos que chegam carregados de peixe, outros que partem carregados de turistas, gaivotas que roubam o que podem, saltimbancos que actuam como sabem… sob o pano de fundo da Table Mountain que quase rouba o protagonismo a tudo isto.
Hoje está coberta de nuvens que nem o forte vento consegue soprar dali para fora. Mau presságio, pois amanhã contava subir até ao topo. Veremos…
Todas as cidades são especiais mas há umas mais especiais que outras e Cape Town é mesmo assim… única nos seus contrastes, de selvagem a sofisticada, de conservadora a cosmopolita, de Camps Bay a Imizamo.

Não voltes aos lugares onde foste feliz

Tenho as mãos cheias de bolhas e feridas, que nem as de um pugilista. Mas aqui as batalhas são outras… Aprender a fazer fogo com paus, desbravar mato, trocar pneus e… de lavar meias no tanque da roupa!
As pernas e pés também não têm melhor aspecto. Picadas de mosquito de perder a conta e duas picadas de outros bichos que insistem em não sarar. Muito provavelmente de uma aranha ou de um outro insecto qualquer. Todos os dias aparecem insectos novos, de todas as cores, tamanhos e bizarrices. Uns ainda dá para identificar pelos livros, outros não faço ideia de que planeta vêm.
Igualmente todos os dias ouvimos os leões a rugir, umas vezes ao raiar do dia outras ao por do sol mas já se passaram 2 semanas e continuamos sem vê-los. Eles sabem bem como e quando nos evitar. Todos os dias vemos novas pegadas em locais diferentes, até mesmo em redor do camp mas insistem em não se deixarem ver.
Mashatu tornou-se um local familiar onde já sei de cor os caminhos, lugares, cheiros e paisagens. Zebras, gnus, impalas, dassies, kudus e até mesmo leopardos fazem parte da paisagem como que imutáveis tal como as árvores ou rochas que decoram este lugar. Mas os leões, esses continuam a jogar o seu jogo.
Uma certa manhã, ainda com o sol a romper, começou com ventos de mudança. Uma forte rajada sacudiu violentamente as árvores e levou o ar quente e húmido à sua frente, dando lugar a uma estranha calmaria gélida e silenciosa. E foi assim que chegou o Inverno… O silêncio só foi interrompido pela chegada da chuva que caiu em proporções bíblicas durante a manhã toda, levando ao cancelamento de todas as actividades, caminhadas ou drives. O tempo foi utilizado por alguns para ficar a estudar nas tendas, pois os exames aproximam-se. A chuva que antes apareceu de rompante sem aviso vai agora calmamente suavizando e dando lugar aos sons de outrora com a excepção de um barulho de fundo novo mas que me é familiar… ouve-se água a correr e em torrente que parece não abrandar. É o rio! Já parou de chover há algum tempo mas o rio continua a subir! Deve ter caído o céu a montante, pois o que antes parecia um deserto de areia, parece agora um oceano em dia de temporal. São 3 da tarde e o rio começou a inundar o camp. Não há nada que se possa fazer… não vale a pena lutar lutas que se sabem perdidas. Resta-nos apenas salvar o que nos interessa e pasmar. Felizmente nada se perdeu ou estragou, como se as inundações fizessem parte da rotina e estrutura do camp, como se de mais uma maré tratasse. Escova-se a água para fora das tendas, sacodem-se as coberturas e tudo volta ao normal.
Nem tudo… os elefantes já não voltam ao fim da tarde para beber em frente ao camp. As impalas que antes se contavam às centenas, quedam-se pelos poucos machos solitários que não querem perder o seu território. As zebras também parecem ter descoberto novas paragens. Os leões, esses continuam a ganhar no eterno jogo das escondidas.
Os dias passam-se e tudo parece voltar ao normal, com a água a escassear e os animais a terem de voltar aos velhos sítios para beber diariamente. Podem passar dias, semanas ou meses mas eles sabem onde voltar. Mashatu voltou ao normal mas já sem as temperaturas que nos habituou no início, onde as manhãs começam frias e as tardes soalheiras facilmente ultrapassam os 30C.
Os últimos dias aqui em Mashatu e aliás do curso trazem uma nostalgia que fala por todos nós, como que uma despedida antecipada e antevendo já uma imensa saudade destes 2 meses que foram vividos intensamente a cada minuto que passava. Fazemos o nosso último drive até um sítio onde nunca estivemos antes.
E parece que tudo ficou guardado para o último dia…
Este lugar no topo de um promontório escarpado que cai a pique sobre o rio Motloutse não é de fácil acesso mas vale cada passo inseguro para lá chegar. Daqui de cima avista-se toda a extensão da reserva, cada um dos lugares onde estive e outros que despertam ainda maior curiosidade de visita. Animais de todos os tipos polvilham a paisagem e até uma enorme manada de elefantes se distingue à distância. Olho à minha volta e lentamente tento registar visualmente cada pormenor deste lugar, absorver cada forma, cada cor, como se estivesse a pintar um mapa na minha memória, na quase certeza de que aqui jamais voltarei…não por falta de vontade mas fui aprendendo que é difícil voltar a todos os lugares onde fomos felizes. Se assim é mesmo para aqueles à distância de um simples voo quanto mais para este lugar bastante próximo do fim do mundo.
“Não voltes aos lugares onde foste feliz” tem a sua razão de ser, pois os lugares somos nós que os criamos, fruto das experiências, sensações ou sentimentos que lá deixámos. É inútil voltar e esperar que tudo tenha ficado cristalizado e pronto a ser vivido outra vez. Nem me quero imaginar a voltar a Lloret del Mar! Que desilusão seria. Prefiro que fique assim na minha imaginação como um lugar mágico.
Mashatu também é magico e especialmente nostálgico na hora da despedida. Regressamos ao camp em silêncio, cada um entretido com os seus pensamentos e olhando horizontes diferentes na vergonha de mostrar cada qual os seus olhos aguados.
Somos bruscamente interrompidos desta nossa letargia por uma súbita travagem! Que nem estátuas da Antiguidade, dois leões deitados no meio da estrada impedem a passagem. Finalmente. Parece que eles sabiam…

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