Casamento

Tal como nos aconselharam, chegámos mais cedo para garantir lugar. Meia hora não fora suficiente pois a igreja ja estava cheia e suspeito que desde o primeiro raiar de sol… O caso não era para menos: celebrava-se o casamento do ano!

Enquanto esperamos, o coro ensaia, os acólitos fazem-se ocupados numa azáfama de inúteis ajustes, o padre distribui benções, as crianças ocupam todos os pequenos espaços onde os adultos não conseguem caber. A pequena igreja transforma-se num colorido Tetris humano. Não cabiam mais corpos naquele espaço. Duas crianças respiravam no meu pescoço. Era o único espaço que lhes era permitido ocupar.

A sala começou a aquecer. Bastante. Prevendo essa situação, sentei me junto a uma porta lateral aberta para a rua para apanhar a pequena brisa que soprava como que encomendada.

Sabia que a cerimónia ia ser longa. Assim foi… duplamente longa por ser celebrada em Inglês e Ruchiga, numa espécie de desgarrada africana mixada com transe episcopal.

Entre vários sermões, canções e exaltações, aos quais não prestei atenção por estar a observar todas as pequenas curiosidades que se passavam à minha volta, sintonizei na pregação sobre as três coisas q a mulher não deve fazer ao Homem depois de casar:

1- “Não deve envenenar o homem”, vá-se la perceber porquê!

2- “Não deve bater na cabeça do homem com um pau”. Não foi explícito se são permitidos outros artefactos…

3- “Não deve atropelar o homem com o carro, se tiver um”. Acho q foi um comentário de mau gosto pois ninguém na aldeia tem carro.

Três horas e meia depois, parece que finalmente está o casamento celebrado. Seguimos para o copo d’água. Toda a aldeia foi convidada! Os mzungus amigos dos noivos têm direito a um lugar e refeição especial. À restante multidão, é oferecida uma senha de almoço a cada um para não haver trafulha… muito embora o banquete estivesse a ser guardado por vários militares do exército de AK-47. (Apenas para tranquilizar o meu pai que irá também ler este texto, isto por aqui é super pacífico e tranquilo. Simplesmente a metralhadora AK-47 é uma coisa corriqueira, qualquer guarda de supermercado tem uma. Encontram-se vulgarmente por todo o lado e no outro dia até estavam umas crianças a brincar com uma que alguém se deve ter esquecido na paragem do autocarro. Portanto, no worries 😉

Após almoço chega a hora do cortejo das ofertas aos noivos. Entre torradeiras e terrenos agrícolas, os noivos são contemplados com uma parafernália de oferendas, acompanhadas por um relato ao género de Fernando Mendes na montra do Preço Certo. Ainda a saca dos presentes ia a meio quando decido que é hora de deixar a festa, que continuará por mais 2 dias.

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