Terra das coisas ao contrário

Passaram-se duas semanas desde que escrevi e o tempo continua a correr ao contrário. Mas na verdade, por aqui até a Lua cresce ao contrário e as cigarras só cantam de noite. Aliás, curiosamente muitas coisas por aqui funcionam ao contrário.
Este novo camp de Karongwe, apesar de maior e de oferecer melhores condições, não tem o encanto do outro. Talvez por Pridelands ter sido o primeiro ou porque simplesmente aqui na “terra das coisas ao contrário” se valoriza o simples e o despojado.
Não tenho tido tempo para escrever nem desenhar como queria. Não há mesmo tempo pra mais nada que não sejam as aulas praticas e teóricas e testes e trabalhos extra e caminhadas e safari e conduzir e desatascar jipes da ribeira e trocar de pneus com 40C e… depois do jantar, pelas 20:00 só apetece cair na cama, num colchão que em circunstâncias normais me tiraria o sono mas que já me parece a cama de uma qualquer suite real. Hoje, por exemplo, para conseguir escrever aqui umas poucas palavras, nem tomei duche.
Juntando isto ao facto de não haver mesmo rede nenhuma, excepto nalguns sítios especiais aqui da reserva que de um momento para o outro me descarrega mails e mensagens em catadupa e depois deixa logo de haver rede novamente. Esta mensagem por exemplo vou deixa-la pendente amanha antes de irmos para o “bush” novamente. Pode ser que seja enviada. Alem disto, não há electricidade. Carreguei o power bank há 3 dias. Já esta no fim e não sei quando volta a haver electricidade outra vez.
É impressionante ver o que aprendemos até aqui e a vontade incessante de aprender ainda mais. Mas é muito cansativo. Muito mesmo.
Engraçado ver como as percepções e prioridades se vão alterando… nas caminhadas já ninguém quer ir ver os rinocerontes nem os elefantes nem leões! Já só tem interesse descobrir aquela tal aranha que faz uma teia dourada ou uma qualquer ave rara, ou formigas! Quão mais interessante e complexas são as térmitas do que o entediante leão que leva 23 horas do dia deitado.
Todos os dias há um escorpião ou uma cobra ou qualquer coisa na tenda de alguém.
Brincamos com a situação dizendo que cada tenda tem um bicho de estimação diferente. Sorte a minha ter-me calhado logo dois calminhos! Uma lagartixa bem gorda que ta sempre a fazer barulho cada vez que anda pela tenda com aquelas unhas enormes e um rato que nunca vi mas olhando ao tamanho das poitas que apanho todos os dias, deve ser do tamanho de um coelho. Apesar da descontração com que se lida com estas coisas, na certeza que um rato esteve em cima da minha almofada, continuo a levantar os tampos e a inspecionar a sanita antes de me sentar ou a caminhar de olhos esbugalhados com a lanterna a apontar pra todos os lados cada vez que ando a noite pelo camp, na esperança de nunca ver 2 pontos brilhantes.

Leave a comment

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

Create your website with WordPress.com
Get started
%d bloggers like this: