Quando estamos longe começamos a sentir falta de algumas
coisas, umas mais que outras e umas a seguir às outras.
Após estes meses no bush, cheguei a Cape Town, onde a primeira coisa que fiz
foi apressar-me em direção ao Mar.
Chego e observo-o como se fosse a primeira vez. Percebo uma estranha sensação
de preenchimento como se reencontrasse um velho amigo longe de casa e após
longa ausência, continua igual a si próprio. Aquele amigo cúmplice de
brincadeiras, confissões e soluções. Ficamos ali a conversar os dois como
sempre fizemos, a pôr a conversa em dia, até sermos interrompidos por um grupo
de golfinhos que passa bem perto sem pressa e sem vergonha. Apercebo-me que sou
o único encantado entre as várias pessoas que passeiam no calçadão e que
simplesmente lhes dão a mesma atenção que às comuns gaivotas! Continuo na mesma
a fitá-los até contornarem o cabo de Green Point e perdê-los de vista.
Sigo o meu caminho desta vez descalço por entre as rochas que retêm a água de
outras marés e pequenas enseadas de areia. Apanho conchas, búzios, lapas…
Sinto-me em casa.
Chego finalmente à zona de Waterfront, outrora o porto mais movimentado de
África, hoje transformado numa frente de mar super dinâmica e sofisticada, de
fazer inveja a qualquer cidade costeira europeia. A azáfama é grande com barcos
que chegam carregados de peixe, outros que partem carregados de turistas,
gaivotas que roubam o que podem, saltimbancos que actuam como sabem… sob o
pano de fundo da Table Mountain que quase rouba o protagonismo a tudo isto.
Hoje está coberta de nuvens que nem o forte vento consegue soprar dali para
fora. Mau presságio, pois amanhã contava subir até ao topo. Veremos…
Todas as cidades são especiais mas há umas mais especiais que outras e Cape
Town é mesmo assim… única nos seus contrastes, de selvagem a sofisticada, de
conservadora a cosmopolita, de Camps Bay a Imizamo.
