Tenho as mãos cheias de bolhas e feridas, que nem as de um
pugilista. Mas aqui as batalhas são outras… Aprender a fazer fogo com paus,
desbravar mato, trocar pneus e… de lavar meias no tanque da roupa!
As pernas e pés também não têm melhor aspecto. Picadas de mosquito de perder a
conta e duas picadas de outros bichos que insistem em não sarar. Muito
provavelmente de uma aranha ou de um outro insecto qualquer. Todos os dias
aparecem insectos novos, de todas as cores, tamanhos e bizarrices. Uns ainda dá
para identificar pelos livros, outros não faço ideia de que planeta vêm.
Igualmente todos os dias ouvimos os leões a rugir, umas vezes ao raiar do dia
outras ao por do sol mas já se passaram 2 semanas e continuamos sem vê-los.
Eles sabem bem como e quando nos evitar. Todos os dias vemos novas pegadas em
locais diferentes, até mesmo em redor do camp mas insistem em não se deixarem
ver.
Mashatu tornou-se um local familiar onde já sei de cor os caminhos, lugares,
cheiros e paisagens. Zebras, gnus, impalas, dassies, kudus e até mesmo
leopardos fazem parte da paisagem como que imutáveis tal como as árvores ou
rochas que decoram este lugar. Mas os leões, esses continuam a jogar o seu
jogo.
Uma certa manhã, ainda com o sol a romper, começou com ventos de mudança. Uma
forte rajada sacudiu violentamente as árvores e levou o ar quente e húmido à
sua frente, dando lugar a uma estranha calmaria gélida e silenciosa. E foi
assim que chegou o Inverno… O silêncio só foi interrompido pela chegada da
chuva que caiu em proporções bíblicas durante a manhã toda, levando ao
cancelamento de todas as actividades, caminhadas ou drives. O tempo foi
utilizado por alguns para ficar a estudar nas tendas, pois os exames
aproximam-se. A chuva que antes apareceu de rompante sem aviso vai agora
calmamente suavizando e dando lugar aos sons de outrora com a excepção de um
barulho de fundo novo mas que me é familiar… ouve-se água a correr e em
torrente que parece não abrandar. É o rio! Já parou de chover há algum tempo
mas o rio continua a subir! Deve ter caído o céu a montante, pois o que antes
parecia um deserto de areia, parece agora um oceano em dia de temporal. São 3
da tarde e o rio começou a inundar o camp. Não há nada que se possa fazer…
não vale a pena lutar lutas que se sabem perdidas. Resta-nos apenas salvar o
que nos interessa e pasmar. Felizmente nada se perdeu ou estragou, como se as
inundações fizessem parte da rotina e estrutura do camp, como se de mais uma
maré tratasse. Escova-se a água para fora das tendas, sacodem-se as coberturas
e tudo volta ao normal.
Nem tudo… os elefantes já não voltam ao fim da tarde para beber em frente ao
camp. As impalas que antes se contavam às centenas, quedam-se pelos poucos
machos solitários que não querem perder o seu território. As zebras também
parecem ter descoberto novas paragens. Os leões, esses continuam a ganhar no
eterno jogo das escondidas.
Os dias passam-se e tudo parece voltar ao normal, com a água a escassear e os
animais a terem de voltar aos velhos sítios para beber diariamente. Podem
passar dias, semanas ou meses mas eles sabem onde voltar. Mashatu voltou ao
normal mas já sem as temperaturas que nos habituou no início, onde as manhãs
começam frias e as tardes soalheiras facilmente ultrapassam os 30C.
Os últimos dias aqui em Mashatu e aliás do curso trazem uma nostalgia que fala
por todos nós, como que uma despedida antecipada e antevendo já uma imensa
saudade destes 2 meses que foram vividos intensamente a cada minuto que
passava. Fazemos o nosso último drive até um sítio onde nunca estivemos antes.
E parece que tudo ficou guardado para o último dia…
Este lugar no topo de um promontório escarpado que cai a pique sobre o rio
Motloutse não é de fácil acesso mas vale cada passo inseguro para lá chegar.
Daqui de cima avista-se toda a extensão da reserva, cada um dos lugares onde
estive e outros que despertam ainda maior curiosidade de visita. Animais de
todos os tipos polvilham a paisagem e até uma enorme manada de elefantes se
distingue à distância. Olho à minha volta e lentamente tento registar
visualmente cada pormenor deste lugar, absorver cada forma, cada cor, como se
estivesse a pintar um mapa na minha memória, na quase certeza de que aqui
jamais voltarei…não por falta de vontade mas fui aprendendo que é difícil
voltar a todos os lugares onde fomos felizes. Se assim é mesmo para aqueles à
distância de um simples voo quanto mais para este lugar bastante próximo do fim
do mundo.
“Não voltes aos lugares onde foste feliz” tem a sua razão de ser, pois os
lugares somos nós que os criamos, fruto das experiências, sensações ou
sentimentos que lá deixámos. É inútil voltar e esperar que tudo tenha ficado
cristalizado e pronto a ser vivido outra vez. Nem me quero imaginar a voltar a
Lloret del Mar! Que desilusão seria. Prefiro que fique assim na minha
imaginação como um lugar mágico.
Mashatu também é magico e especialmente nostálgico na hora da despedida.
Regressamos ao camp em silêncio, cada um entretido com os seus pensamentos e
olhando horizontes diferentes na vergonha de mostrar cada qual os seus olhos
aguados.
Somos bruscamente interrompidos desta nossa letargia por uma súbita travagem!
Que nem estátuas da Antiguidade, dois leões deitados no meio da estrada impedem
a passagem. Finalmente. Parece que eles sabiam…
